Como o Voto Feminino no Brasil Superou a Misoginia Histórica: Uma Luta de Conquistas

Discurso Antifeminista Ressurge e Provoca Reflexões Sobre o Voto Feminino no Brasil

A luta pelo sufrágio feminino atravessa mais de um século e ainda enfrenta resistência nas palavras de influenciadores e políticos.

Os debates sobre o voto feminino, que há 135 anos eram acalorados e repletos de preconceitos, voltaram à tona recentemente nas redes sociais. A afirmação do influenciador Paulo Figueiredo, que descreditou a capacidade das mulheres para votarem de forma consciente, reacendeu uma discussão que muitos pensavam superada.

Uma História de Resistência

Desde a Constituição de 1891, que negou o sufrágio feminino sob a alegação de que as mulheres não possuíam a "capacidade" para participar da política, discursos misóginos têm tentado deslegitimar a voz e os direitos das mulheres. Especialistas em direitos femininos afirmam que esses ataques são reações à conquista de cidadania pelas mulheres, revelando uma continuidade preocupante do machismo na sociedade brasileira.

A professora Fernanda Abreu, da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN), destaca que tais argumentos, que ressoam ainda hoje, violam a Constituição Federal de 1988, que assegura o voto universal sem distinções. Segundo ela, é fundamental agir contra essas manifestações, que não apenas são inconstitucionais, mas também ferem os princípios básicos de igualdade.

Economia e Política em Foco

As mulheres representam mais de 53% do eleitorado brasileiro em 2026, o que torna as tentativas de deslegitimar seu voto um ato de intimidação política. Os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) revelam que há cerca de 83 milhões de eleitoras aptas a votar, comparadas a aproximadamente 75 milhões de eleitores homens. Contudo, apesar dessa maioria, o cenário ainda é desafiador devido à dependência financeira e à histórica desestimulação das mulheres para a participação ativa na política.

A professora de economia e gênero Hildete Pereira, da Universidade Federal Fluminense (UFF), enfatiza que a luta pela igualdade de direitos continua, pois muitas mulheres ainda são vistas apenas como cuidadoras e não como representantes.

O Legado das Sufragistas

Ela, junto a outras estudiosas, ressalta a importância de lembrar das sufragistas que se dedicaram a conquistar direitos. Esse legado é vital, pois a luta pelo voto feminino não foi uma concessão espontânea, mas fruto de fervorosos protestos e estratégias inteligentes que começaram no início do século 20. Bertha Lutz e Leolinda Daltro, por exemplo, foram pioneiras que, mesmo enfrentando muita resistência e ridicularização, lutaram incansavelmente por esse direito.

O marco importante nessa trajetória foi o Decreto 21.076 de 1932, que estabeleceu o direito de voto para mulheres, consolidado na Constituição de 1934. Contudo, até aquele momento, as eleitoras casadas precisavam da autorização dos maridos para votar.

O Caminho à Frente

As pesquisadoras sugerem que as atuais gerações devem atenção a qualquer tentativa de reverter os direitos conquistados. Enquanto a luta pelo sufrágio feminino já enfrentou muitos obstáculos, é vital que as mulheres permaneçam atentas e ativas na defesa de seus direitos político-sociais.

Como afirma a professora Ana Prestes, as sufragistas usaram a criatividade e a ousadia para se fazerem ouvir. "Essas mulheres do final do século 19 e início do século 20 nos ensinam, tanto tempo depois, que é preciso participar e não desistir", conclui Hildete Pereira.

A história do voto feminino no Brasil continua a ser um campo de batalha; a resistência e a luta por igualdade seguem atuais e urgentes.

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br