Crise de Representatividade: Religiões de Matriz Africana Excluídas nas Campanhas Políticas de 2026
Aumento no número de praticantes destaca a falta de engajamento político
Nos próximos anos, as campanhas políticas de 2026 parecem ignorar um segmento crescente da população brasileira: os adeptos das religiões de matriz africana e afro-brasileira. De acordo com o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de praticantes dessas crenças triplicou de 2010 a 2022, chegando a 1,8 milhão de pessoas. Entretanto, ao contrário dos eleitores cristãos, este grupo se sente marginalizado nos discursos e propostas eleitorais.
Intolerância Religiosa e Marginalização
Religiosos e estudiosos, como a advogada e umbandista Lívia dos Santos, apontam que a falta de representatividade é reflexo de um preconceito enraizado. "É muito difícil a gente, que é de religião de matriz africana, se ver representado pelos políticos", afirma Lívia. Ela ressalta que a sociedade ainda não se permite conhecer essas religiões devido ao histórico de marginalização e criminalização sofrido pelos povos que cultuam orixás.
A luta contra a intolerância religiosa é considerada uma das principais bandeiras para a democracia entre os praticantes de tais crenças. O Código Penal, através do Artigo 208, prevê penas de um a três anos para crimes de discriminação religiosa, mas a efetividade dessa proteção ainda é questionável.
Uma População em Crescimento, Mas Ignorada
Os praticantes de religiões de matriz africana, apesar de representarem uma parcela menor da população em comparação aos aproximadamente 80% de católicos e evangélicos, não devem ser desconsiderados. O pai de santo e pesquisador Leonardo Vieira, da Universidade Federal Fluminense, destaca que “há nichos da política que ainda concebem os povos de terreiro como inferiores”. Para ele, a visão errônea de que esses grupos não podem se organizar politicamente precisa ser desmistificada.
"A organização política começa dentro dos terreiros, nas suas relações comunitárias e coletivas", explica Vieira, enfatizando que essa dinâmica é uma forma de fazer política diferente, mais inclusiva.
Desafios nas Mobilizações Políticas
Em época de eleição, os grandes eventos religiosos costumam ser aproveitados por candidatos, mas no caso das religiões afro-brasileiras, a mobilização não é tão simples. A constante ameaça de violências e intolerâncias religiosas dificulta que os praticantes se unam em torno de uma agenda comum.
Os dados do Disque Direitos Humanos (Disque 100) reforçam essa situação alarmante: entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, foram registradas 2.774 denúncias relacionadas à intolerância religiosa. O serviço do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, disponível 24 horas, oferece atendimento gratuito e imediato para denúncias.
Ao enfrentar esses desafios, os adeptos das religiões de matriz africana buscam não apenas visibilidade, mas também o reconhecimento de seus direitos e a construção de um espaço político respeitoso e inclusivo.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br








