O Crescimento das Canetas Emagrecedoras e Seus Impactos Sociais
Especialistas alertam sobre o uso indiscriminado de medicamentos para emagrecimento e suas consequências na sociedade
O aumento da popularidade das canetas emagrecedoras, medicamentos subcutâneos para o tratamento da obesidade, tem gerado intensos debates sobre suas implicações sociais e de saúde. Embora esses remédios sejam reconhecidos por seus efeitos rápidos e tenham o respaldo de várias sociedades médicas, o uso sem orientação profissional e por pessoas que não sofrem de obesidade é alarmante.
A Economia Moral da Magreza
Fernanda Scagluiza, professora das faculdades de Saúde Pública e Medicina da Universidade de São Paulo (USP), discute o conceito de "economia moral da magreza", que destaca como diferentes corpos são percebidos na sociedade. Em uma entrevista ao programa Caminhos da Reportagem, exibido pela TV Brasil, ela explica que um corpo magro é muitas vezes tratado como um símbolo de virtude, enquanto um corpo gordo é associado a estereótipos negativos como preguiça e falta de disciplina.
“Essa dinâmica social cria uma hierarquia, onde pessoas com corpos mais magros gozam de privilégios nas relações sociais, enquanto aqueles com corpos gordos enfrentam discriminação e opressão”, afirma Scagluiza.
Padrões de Beleza e a Exclusão
A professora ressalta que os padrões de beleza são mutáveis, mas sempre excluem a diversidade. “Quando se impõe um ideal, como a magreza extrema, muitas pessoas ficam de fora, o que alimenta uma indústria que se beneficia dessa exclusão”, comenta.
Scagluiza acredita que essa pressão estética não se limita apenas a pessoas com sobrepeso. Mesmo os que estão dentro do padrão de magreza enfrentam uma constante cobrança para se adequar a modelos ideais de corpo.
A Retorno da Magreza Extrema
Embora o início da década de 2010 tenha trazido movimentos de positividade corporal, a atual onda de canetas emagrecedoras sugere um retrocesso. A professora observa que esses padrões de beleza extremos estão voltando, relegando a diversidade a um segundo plano.
“Muitas modelos estão tão magras que até as roupas tamanho zero estão largas. Isso é particularmente perigoso para crianças e adolescentes, que são muito influenciáveis”, alerta.
A Medicalização da Alimentação e Seus Efeitos
Scagluiza também discute a medicalização da alimentação, onde a comida passa a ser vista como remédio. Com isso, práticas alimentares saudáveis se tornaram a nova norma, deixando de lado o aspecto social e simbólico da alimentação.
Ela relata que algumas mulheres que usam canetas emagrecedoras chegam a se referir aos medicamentos como “vacina contra a fome”, o que transforma necessidades naturais em uma questão de controle.
“Esse tipo de pensamento pode levar a comportamentos prejudiciais, como restrição alimentar extrema. Isso é muito preocupante e traz riscos à saúde”, adverte.
Conclusão
A crescente adoção das canetas emagrecedoras e a busca por padrões estéticos irreais demonstram a necessidade urgente de promover discussões sobre aceitação e diversidade corporal. A exploração desses padrões por indústrias da beleza e saúde pode oferecer soluções de curto prazo, mas os efeitos a longo prazo na saúde mental e física da sociedade são profundos e preocupantes.
Fonte: www.folhape.com.br








