Descubra o Quilombo que Canta e Dança para Garantir um Futuro Melhor

Quilombo do Catucá: Um espaço de resistência e cultura em Camaragibe

Comunidade celebra tradições afro-brasileiras através de arte, educação e solidariedade

Na Rua Ana Alves, no bairro Viana, em Camaragibe, Pernambuco, o que se vê não é apenas uma paisagem, mas um pulsar de história e cultura. A educadora popular e artista quilombola Moa de Oyá observa a antiga Mata do Catucá, hoje chamada de Mata da Várzea, e sente a presença dos ancestrais que há séculos trilharam aqueles caminhos.

O Centro Cultural Quilombo do Catucá e o Ilê Axé Alaketu Oyá T’Ogun são muito mais que estruturas físicas; são organismos vivos que reúnem a comunidade em busca de educação e cultura. Mensalmente, o local promove oficinas, exposições e debates intergeracionais, onde crianças e idosos se encontram para compartilhar saberes e fortalecer a memória coletiva.

Uma herança cultural viva

Moa de Oyá destaca a importância desses encontros não apenas como um reconto da história, mas como uma forma de promover saúde mental e espiritual para todos os envolvidos. Ela também representa a cultura quilombola assumindo o papel de Dama do Paço no Maracatu Nação Cabeça de Nêgo, um grupo que se originou do próprio quilombo. No cortejo, sua missão é conduzir a calunga, uma boneca preta que simboliza uma entidade sagrada, essencial para acompanhar todos os desfiles.

O legado de um mestre

A possibilidade de Moa participar novamente das festividades é fruto do trabalho do mestre Maureliano Ribeiro, que fundou o Cabeça de Nêgo em 2008. Este maracatu se apresenta como uma corte imperial africana nas ruas durante o Carnaval, celebrando a história de um povo que persiste em sua luta e cultura.

Maureliano, que também fez parte do movimento Manguebeat e faleceu em 2022, deixou um legado que continua inspirando os quilombolas do Catucá. Moa expressa gratidão ao mestre e lembra que as ações do grupo são manifestações vivas da cultura afro-brasileira.

Sambada do Catucá: uma celebração comunitária

No Quilombo do Catucá, as sambadas se tornaram um ponto de encontro vibrante. Realizadas em sábados selecionados, esses eventos, que envolvem danças e música, decorrem em um local ornamentado com flores e palhas, onde as folhas de canela impregnadas de aromas doces tornam o ambiente ainda mais especial. A festividade começa à noite e se estende até o amanhecer, simbolizando a resistência da comunidade.

A cantora Marcela Pontes enfatiza que a sambada é o espaço dos artistas locais, longe da pressão comercial, criando um ambiente seguro para expressões autênticas.

Um legado feminino

A força do Ilê Axé Alaketu Oyá T’Ogun e do espaço cultural é também reflexo da trajetória da ialorixá Flávia de Oyá, que faleceu em 2021. Conhecida como Mãe Flávia, ela sempre foi uma conselheira atenta e um alicerce da família. Sua filha, Elaine de Oxum, carrega com orgulho esse legado, destacando a responsabilidade de manter viva a história da mãe e de sua cultura.

Elaine também observa o impacto social do quilombo, que se tornou uma rede de apoio comunitário. O espaço promove rodas de diálogo, ajuda jovens e mantêm ações de doações, estendendo a mão a quem mais precisa.

Reconhecimento nacional

O Quilombo do Catucá recebeu projeção nacional durante o Carnaval, quando a Unidos do Viradouro homenageou Malunguinho, um líder quilombola, em seu desfile. O carnavalesco Tarcísio Zanon ficou impressionado com a força ancestral e o cuidado da comunidade, que se uniu para honrar sua história.

As alegorias e fantasias contaram a história de vida e resistência do Catucá, mostrando ao Brasil e ao mundo a beleza e a força de sua cultura. Um dos momentos de destaque foi quando um juremeiro pernambucano viu Malunguinho correndo entre as matas durante a apresentação, o que reforça a conexão entre o passado e o presente.

No dia a dia, a ancestralidade do Catucá continua a crescer, unindo a comunidade em uma luta que atravessa gerações, sempre com a certeza de que "nunca andamos sozinhos".

Fonte: www.leiaja.com