Violência política afeta mulheres vereadoras em todo o Brasil, revela estudo
Pesquisa da Rede A Ponte aponta que a Câmara Municipal é o principal espaço de agressões, refletindo desigualdades de gênero e raça.
Uma nova pesquisa da Rede A Ponte, divulgada nesta terça-feira (11), revela que seis em cada dez vereadoras brancas e oito em cada dez vereadoras negras sofreram violência política. O estudo, intitulado Raio X da Violência Política de Gênero e Raça no Legislativo Municipal, ouviu mais de 70 parlamentares e traz à tona um preocupante cenário de agressões dentro das próprias câmaras municipais.
Cenário alarmante
Segundo o relatório, a maioria das agressões – 77% – ocorre nas próprias Câmaras Municipais, enquanto os agressores são predominantemente homens brancos cisgêneros, responsáveis por oito em cada dez casos. Isso evidencia a persistência de desigualdades de poder na política brasileira, mesmo após a implementação da Lei 14.192/2021, que visa proteger os direitos políticos das mulheres.
O estudo notou que 64% das agressões ocorrem durante o mandato e que, em 34% dos casos, o agressor é um colega de partido, o que é frequentemente chamado de “fogo amigo”.
Tipos de violência enfrentados
Entre os diferentes tipos de violência, 89% das vereadoras reportaram agressões psicológicas, como interrupções de fala e humilhações. Além disso, 82% foram alvos de violência simbólica, que implica na exclusão de espaços de decisão e geração de autocensura. O relatório também detalhou outras formas de violência, incluindo:
- Violência moral: 59% dos relatos mencionam calúnias e difamações.
- Ataques à identidade: 30% envolvem deslegitimação por características étnicas e de gênero.
- Violência econômica: controle ou desvio de recursos partidários.
- Assédio sexual: toques indesejados e associações de favores sexuais à atuação política.
- Violência física: agressões que podem chegar à tentativa de feminicídio.
Falta de apoio e visibilidade
A diretora-executiva da Rede A Ponte, Amanda de Albuquerque, destaca a falta de apoio das instituições para as mulheres que entram na política. O relatório aponta que a resposta do Estado à violência é insuficiente, com apenas 12 das 44 ocorrências registradas gerando denúncias formais, sem seguimento na Justiça.
Lauana Chantal, gestora de Mobilização e Articulação Política da Rede A Ponte, reforça que a violência política de gênero e raça é um obstáculo significativo à democracia e atinge mais fortemente as mulheres negras. Ela acredita que a imprensa desempenha um papel crucial na luta contra essa violência, pois a cobertura efetiva pode promover o controle social e questionar a legitimidade das agressões.
Desafios enfrentados pelas vereadoras
As vereadoras ouvidas relatam dificuldades de serem reconhecidas e respeitadas nas câmaras, além de lidarem com comentários violentos nas redes sociais que impactam sua saúde mental. Muitas sentem que é quase impossível continuar nessa trajetória sem uma rede de apoio sólida.
O estudo também revela que a consciência da população sobre a violência política ainda é limitada, tornando essencial o papel da mídia para aumentar a visibilidade do problema e incentivar mudanças.
Dados sobre a representatividade
O relatório, baseado em dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mostra que, em 2024, apenas 18,2% das cadeiras das câmaras municipais foram ocupadas por mulheres. Além disso, 734 municípios não elegeram nenhuma mulher, e apenas 7,5% das cadeiras legislativas estão ocupadas por mulheres negras, que representam 28% da população. Em contraste, apenas 5% das candidatas negras foram eleitas, comparadas a 19% dos homens brancos.
A situação é ainda mais preocupante para as mulheres indígenas: apenas 39 das 924 candidatas registradas foram eleitas, representando apenas 0,07% das cadeiras.
Esse panorama ressalta a urgência de ações efetivas que não só combatam a violência política, mas também promovam uma maior inclusão e representação das mulheres no âmbito político.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br








