Transnordestina em Pernambuco

Transnordestina em Pernambuco: orçamento de 2026 preocupa Raquel Lyra e ameaça retomada da ferrovia

O trecho Custódia–Arcoverde da Transnordestina em Pernambuco foi licitado por cerca de R$ 415 milhões, mas o Orçamento da União para 2026 reservou apenas R$ 50 milhões. A governadora Raquel Lyra pressiona o governo federal para garantir a recomposição gradual desses recursos e evitar nova paralisação da obra. Ao mesmo tempo, investidores como Petrobras, grupos chineses e árabes olham para Suape e para a ferrovia como eixo estratégico de um novo desenho logístico e energético do País, em sintonia com a expansão de projetos como o Complexo Solar Bom Jardim (189 MW), da Qair, e com a agenda de transparência pública no Nordeste, monitorada pelo PNTP da Atricon.

Contexto e relevância

A Transnordestina é uma ferrovia de integração regional concebida para ligar o interior do Nordeste aos portos de Suape (PE) e Pecém (CE), encurtando distâncias logísticas, reduzindo custos de transporte e aumentando a competitividade de cadeias como grãos, minérios, cimento e combustíveis. Pernambuco, que originalmente fazia parte do traçado, acabou ficando de fora do eixo principal operacionalizado pela concessionária, o que gerou forte reação política e econômica no Estado.

Nos últimos anos, a pressão do governo de Pernambuco e de atores econômicos locais levou à retomada de negociações para incluir novamente o Estado na lógica da ferrovia, em especial por meio do trecho Custódia–Arcoverde e da conexão com Suape. É nesse ponto que o orçamento federal para 2026 se torna decisivo: ele indica o ritmo real de execução das obras e a disposição política do governo central em transformar o projeto em realidade.

O que aconteceu com o orçamento de 2026

De acordo com informações de bastidores e declarações da governadora Raquel Lyra, o trecho Custódia–Arcoverde da Transnordestina em Pernambuco foi licitado por aproximadamente R$ 415 milhões. No entanto, o Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2026 destinou apenas R$ 50 milhões para essa frente de obra.

Na prática, isso significa:

  • Subfinanciamento: com apenas R$ 50 milhões, o governo federal sinaliza um ritmo lento de execução, insuficiente para garantir a entrega do trecho em prazo razoável.
  • Risco de descontinuidade: sem recomposição orçamentária, há risco de novas paralisações, encarecimento da obra e perda de credibilidade do projeto.
  • Desalinhamento com o discurso de integração regional: o corte ou contingenciamento de recursos para Pernambuco contrasta com o discurso de um Nordeste integrado, multimodal e competitivo.

Raquel Lyra tem buscado, em Brasília, uma recomposição gradual desse orçamento, defendendo que a União distribua melhor os recursos entre os diferentes trechos da Transnordestina e priorize a conexão com Suape. A governadora argumenta que, sem a parte pernambucana, o projeto perde boa parte do seu potencial logístico e de desenvolvimento regional.

Por que Pernambuco ficou em desvantagem na Transnordestina

Historicamente, Pernambuco foi um dos Estados que mais defendeu a implantação da Transnordestina. Ainda assim, ao longo da reconfiguração do projeto e das renegociações contratuais com a concessionária, o ramal para Suape perdeu prioridade em relação ao eixo que liga o interior ao Ceará.

Entre os fatores que explicam essa desvantagem estão:

  • Redefinição de prioridades empresariais: a concessionária concentrou esforços no eixo com maior viabilidade econômico-financeira de curto prazo.
  • Fragmentação política regional: a falta de uma frente unificada de pressão dos Estados envolvidos dificultou a defesa de um traçado mais abrangente.
  • Limitações orçamentárias federais: no contexto de restrição fiscal, o governo federal optou por fatiar investimentos, o que favoreceu alguns trechos em detrimento de outros.

A reação política em Pernambuco, liderada por Raquel Lyra, busca justamente reverter essa assimetria e recolocar o Estado como protagonista no projeto.

Suape, energia renovável e hidrogênio verde

O Complexo Industrial Portuário de Suape é o principal ativo logístico de Pernambuco. Nos últimos anos, ele tem se reposicionado como hub de energia limpa e indústria de baixo carbono, atraindo o interesse de empresas nacionais e estrangeiras.

Do ponto de vista estratégico:

  • Suape oferece calado profundo, retroárea ampla e boa conectividade rodoviária, mas ainda carece de uma ligação ferroviária robusta que reduza custos logísticos para o interior do Nordeste.
  • A Transnordestina é vista como o elo que falta para transformar Suape em um corredor logístico completo, integrando ferrovia, porto e, potencialmente, gasodutos e linhas de transmissão de energia.
  • Projetos de hidrogênio verde e combustíveis limpos colocam Suape no radar de investidores europeus, asiáticos e do Oriente Médio, que avaliam não apenas a infraestrutura portuária, mas também a capacidade de escoar produção e insumos pelo interior.

A inclusão efetiva de Pernambuco na malha da Transnordestina, com orçamento compatível com o custo real das obras, é um componente-chave para transformar essas intenções em projetos concretos de investimento.

O Complexo Solar Bom Jardim (Qair) e o novo eixo energético do Nordeste

O Complexo Solar Bom Jardim, da Qair Brasil, localizado em Icó (CE), representa um exemplo emblemático da nova frente de investimentos em energia renovável no Nordeste. A primeira etapa do complexo prevê cerca de 189 MW de capacidade instalada, com apoio financeiro relevante do Fundo de Desenvolvimento do Nordeste (FDNE).

Alguns pontos centrais:

  • Localização estratégica: Icó se insere em uma região com bom potencial solar e relativa proximidade tanto de linhas de transmissão quanto de corredores logísticos em formação.
  • Financiamento público-regional: o FDNE, gerido pela Sudene, participa com montante significativo, ao lado de outros instrumentos como o FNE, reforçando a ideia de que a política de desenvolvimento regional está cada vez mais ligada à agenda de energia limpa.
  • Geração de empregos e renda: a implantação do complexo prevê centenas de empregos diretos e indiretos, além de arrecadação de tributos municipais e estaduais.

O caso do Bom Jardim ilustra como o Nordeste vem se convertendo em plataforma de geração de energia renovável em larga escala, seja solar, seja eólica, seja, em perspectiva, de hidrogênio verde.

Conexão entre energia renovável e logística ferroviária

Projetos como o Complexo Bom Jardim e a Transnordestina não são iniciativas isoladas; eles fazem parte de uma mesma lógica de desenvolvimento:

  • Energia limpa em grande volume exige infraestrutura robusta para escoar equipamentos, insumos e eventualmente produtos industriais associados (aço verde, hidrogênio, amônia, etc.).
  • Ferrovias reduzem custo logístico de cadeias intensivas em carga pesada e volumosa, aumentando a competitividade do Nordeste na disputa por investimentos globais.
  • Integração porto–ferrovia–energia cria “corredores de desenvolvimento”, capazes de atrair parques industriais, centros de distribuição e novos empreendimentos de serviços.

Nesse sentido, a defesa de Raquel Lyra por mais recursos para a Transnordestina em Pernambuco não é apenas uma pauta de infraestrutura, mas uma estratégia para posicionar o Estado na fronteira da nova economia verde global.

Transparência pública e governança de grandes projetos

A Atricon (Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil) coordena o Programa Nacional de Transparência Pública (PNTP), que avalia a qualidade e a abertura dos portais de transparência de órgãos públicos em todo o País. Na edição mais recente, milhares de portais foram analisados, com certificações como Diamante, Ouro e Prata, e um índice médio de transparência elevado no conjunto dos participantes.

No Nordeste, vários Estados e municípios avançaram significativamente na publicação de dados sobre contratos, obras, convênios e gastos com fundos regionais. Isso se relaciona diretamente com projetos como a Transnordestina e o Complexo Bom Jardim porque:

  • Maior transparência reduz espaço para corrupção e desperdício em obras de grande porte.
  • Investidores privados valorizam ambientes regulatórios previsíveis e abertos, onde informações de contrato, licenciamento e execução estão disponíveis.
  • Sociedade civil e imprensa podem acompanhar melhor cronogramas, recursos aplicados e resultados, pressionando por eficiência e cumprimento de prazos.

Para Pernambuco, melhorar continuamente os níveis de transparência é também uma forma de sinalizar ao mercado e ao governo federal que o Estado está preparado para gerir grandes volumes de investimentos em infraestrutura e energia.

Investidores de olho em Suape e na Transnordestina

Nos últimos meses, representantes de diferentes grupos econômicos internacionais, incluindo empresas de petróleo e gás, fundos soberanos e conglomerados industriais da Ásia e do Oriente Médio, intensificaram visitas e estudos sobre o potencial de Suape e do entorno da Transnordestina.

Entre os interesses mapeados estão:

  • Produção e exportação de hidrogênio verde e derivados, aproveitando o potencial renovável do Nordeste e a proximidade com mercados europeus.
  • Implantação de plantas industriais de baixo carbono, que dependem de energia limpa abundante e logística eficiente para importação e exportação.
  • Parcerias público-privadas para operação de trechos ferroviários e terminais logísticos, desde que haja segurança jurídica e estabilidade regulatória.

O problema é que o descompasso entre o valor licitado do trecho pernambucano da Transnordestina e o orçamento efetivamente reservado para 2026 transmite uma mensagem ambígua ao mercado: o projeto é importante, mas pode não ser prioridade fiscal de curto prazo.

Análise crítica do orçamento e dos riscos

Do ponto de vista técnico, alocar apenas R$ 50 milhões em 2026 para um trecho orçado em R$ 415 milhões sugere uma execução plurianual diluída, o que pode resultar em:

  • Atrasos significativos na entrega da obra, com impacto direto na atratividade de Suape e de projetos associados.
  • Risco de aumento de custos, já que obras prolongadas estão mais expostas a variações de preços de insumos e mudanças de projeto.
  • Perda de janelas de oportunidade em investimentos globais em hidrogênio verde e reindustrialização verde, que hoje têm forte componente de timing.

Por outro lado, há espaço para ajustes. O orçamento anual não é imutável: ele pode ser revisto por meio de créditos adicionais, emendas parlamentares e reprogramações de desembolso, especialmente se houver pressão articulada de governos estaduais, bancadas federais e setor produtivo.

O papel de Raquel Lyra e da articulação política

A governadora Raquel Lyra tem atuado em duas frentes principais:

  • Negociação direta com o governo federal para ampliar a dotação orçamentária da Transnordestina em Pernambuco, defendendo a importância do trecho Custódia–Arcoverde e da ligação com Suape.
  • Mobilização da bancada federal pernambucana para apresentação de emendas e para inclusão do tema na agenda de prioridades do Congresso, tanto na Comissão Mista de Orçamento quanto em outras instâncias.

O sucesso dessa estratégia depende da capacidade de Pernambuco de demonstrar que cada real investido na Transnordestina gera retorno econômico e fiscal elevado, não apenas para o Estado, mas para o País como um todo.

Cenários possíveis para os próximos anos

Cenário 1 – Otimista (recomposição rápida do orçamento)

O governo federal aceita os argumentos de Pernambuco e amplia substancialmente a dotação para o trecho Custódia–Arcoverde, seja na própria LOA de 2026, seja por meio de créditos suplementares. As obras ganham ritmo, e a conexão com Suape avança em paralelo a novos projetos de energia limpa e hidrogênio verde.

Nesse cenário, a Transnordestina se consolida como eixo estruturante de um corredor logístico-energético que beneficia não só Pernambuco, mas também Estados vizinhos e o interior do Nordeste.

Cenário 2 – Intermediário (execução lenta, mas contínua)

O orçamento é parcialmente recomposto, mas continua aquém do necessário para uma execução acelerada. As obras avançam, porém em ritmo inferior ao desejado, o que mantém incertezas para investidores privados e pode levar alguns projetos a buscarem alternativas logísticas fora da região.

Cenário 3 – Pessimista (manutenção do baixo orçamento)

O valor de R$ 50 milhões é mantido, com pequenas variações, e o trecho pernambucano da Transnordestina se arrasta ao longo dos anos, sem previsão clara de conclusão. Nesse caso, Pernambuco corre o risco de perder espaço na disputa por grandes empreendimentos industriais e energéticos, enquanto outros corredores do País avançam mais rapidamente.

O que está em jogo para Pernambuco e para o Nordeste

O debate sobre o orçamento de 2026 da Transnordestina em Pernambuco vai muito além de uma disputa por recursos de infraestrutura. Em jogo está a capacidade do Estado de se posicionar como peça-chave de um novo modelo de desenvolvimento para o Nordeste, baseado em:

  • Logística integrada, com ferrovia conectando interior e porto.
  • Energia renovável em escala, articulada a projetos como o Complexo Solar Bom Jardim e futuras plantas de hidrogênio verde.
  • Transparência e boa governança, reforçadas por programas como o PNTP da Atricon.

Se conseguir alinhar orçamento federal, articulação política e ambiente de negócios favorável, Pernambuco tem condições de transformar a Transnordestina em um divisor de águas para sua economia, ampliando empregos, arrecadação e participação nas cadeias globais da nova economia de baixo carbono.

Se, ao contrário, o subfinanciamento persistir, o Estado corre o risco de assistir de longe a consolidação de outros corredores logísticos e energéticos, perdendo uma janela de oportunidade que pode não se repetir com a mesma intensidade.

Em síntese, a luta de Raquel Lyra pelo reforço orçamentário da Transnordestina não é apenas uma pauta de governo: é uma agenda estratégica de Estado, que definirá o lugar de Pernambuco no mapa econômico do Brasil nas próximas décadas.