A queda do dólar frente ao real no início de 2026 não é um movimento isolado. Ela acontece em um contexto de maior apetite por risco global, de fortalecimento de moedas emergentes ligadas a commodities e de um carry trade ainda muito atrativo no Brasil.
Após acumular uma desvalorização superior a 11% em 2025, o dólar segue perdendo força não só contra o real, mas também frente a outras moedas de países emergentes. Para o investidor, isso liga o alerta:
- O que está por trás desse movimento?
- Até quando o real pode se beneficiar?
- Quais são os riscos e oportunidades?
Neste artigo, explicamos os principais fatores que estão pressionando o dólar para baixo e mantendo o real valorizado no cenário internacional.
1. Apetite por risco global impulsiona moedas emergentes
O primeiro ponto para entender a queda do dólar hoje é o humor global dos investidores. O cenário recente mostra:
- Bolsa em alta no mundo todo, em grande parte impulsionada:
- pelo otimismo com o avanço da inteligência artificial (IA),
- e pela perspectiva de novos cortes de juros pelo Federal Reserve (Fed) ao longo de 2026.
- Com essa combinação, há uma migração de capital de ativos mais seguros (como Treasuries e dólar) para ativos de risco, como ações e moedas de países emergentes.
Moedas como peso mexicano, peso colombiano e rand sul-africano também vêm se valorizando, acompanhando esse movimento de busca por risco, especialmente em economias ligadas a commodities.
O Brasil entra nesse contexto com uma vantagem competitiva importante: juros elevados e mercado de renda fixa ainda muito atrativo para estrangeiros.
2. Carry trade: como os juros altos favorecem o real
Um dos conceitos centrais para entender o momento atual é o carry trade. Em termos simples:
O investidor toma recursos em uma moeda com juros baixos e aplica em outra moeda que paga juros mais altos, buscando ganhar na diferença de taxa, além de eventual valorização cambial.
No caso brasileiro, temos hoje:
- Selic em 15% ao ano, segundo as expectativas de mercado citadas;
- Projeção de que o Fed faça uma pausa nos cortes de juros em janeiro, com a maior probabilidade de novos cortes apenas a partir de março de 2026.
Esse diferencial de juros torna o real extremamente atrativo para estratégias de carry trade. Para o investidor estrangeiro, a conta é clara:
- Financia-se em dólar a uma taxa relativamente mais baixa;
- Converte para real e investe em títulos brasileiros bem remunerados;
- Se, além disso, o dólar cai e o real se valoriza, o retorno em moeda forte fica ainda maior.
Esse fluxo de capital ajuda a manter o dólar pressionado para baixo e sustenta a valorização do real, mesmo em dias de menor liquidez.
3. Commodities e o papel do minério de ferro
Embora o artigo de origem destaque que, pontualmente, petróleo e minério de ferro recuaram em um determinado dia, o quadro de 2025 ajuda a entender a resiliência do real:
- O minério de ferro passou boa parte de 2025 com preço acima de US$ 100 por tonelada.
- Essa resiliência nas commodities favorece:
- balança comercial brasileira,
- geração de superávits,
- e, por consequência, melhora a percepção de risco do país.
Mesmo quando há correções pontuais nos preços das commodities, o histórico recente de bons resultados comerciais ajuda a manter o real entre as moedas emergentes melhor posicionadas.
4. Expectativas para juros: Fed em pausa e Selic estável
Outro fator chave para o câmbio é o cenário de juros:
- Para janeiro, o consenso de mercado é de:
- pausa nos cortes de juros nos EUA (Fed deve manter a taxa estável),
- manutenção da Selic em 15% no Brasil.
- A expectativa majoritária é de que os cortes de juros no Brasil só comecem em março de 2026.
Enquanto isso não acontece, o diferencial de juros segue muito favorável ao carry trade em real, o que tende a:
- Manter a entrada de capital estrangeiro em renda fixa;
- Sustentar o apetite por ativos brasileiros;
- Seguir pressionando o dólar para baixo, ainda que com oscilações de curto prazo.
5. Dólar hoje: movimento de curto prazo em um contexto estrutural
Em um dos momentos destacados, o dólar à vista chegou a cair cerca de 0,70%, sendo negociado na casa de R5,45, após bater mínima, esse movimento diário pode parecer modesto, mas ele se encaixa em uma tendência mais ampla:
- Queda acumulada superior a 11% em 2025;
- Continuidade do enfraquecimento da moeda americana no exterior;
- Forte fluxo de capital para ativos de risco.
Para o investidor e para as empresas brasileiras com exposição ao câmbio, o recado é claro:
o momento é de atenção redobrada à gestão de risco cambial, pois:
- A tendência de queda do dólar pode continuar,
- Mas choques externos (tensões geopolíticas, inflação surpresa, revisão nas apostas de juros do Fed) podem trazer volatilidade repentina.
6. O que isso significa para empresas e investidores
Para o público da REVISTA NEGÓCIOS e para o leitor do seu blog, os principais pontos de atenção são:
Para empresas:
- Importadoras podem se beneficiar de custos menores com insumos cotados em dólar, caso a tendência de queda se mantenha.
- Exportadoras podem ver sua margem pressionada se o real continuar se valorizando, exigindo:
- revisão de contratos,
- estratégias de hedge cambial,
- e maior foco em produtividade para compensar o câmbio menos favorável.
Para investidores:
- O renda fixa em real segue atrativa para estrangeiros, o que sustenta o cenário de real forte.
- Para o investidor local:
- vale analisar com cuidado a alocação entre ativos indexados ao câmbio e à taxa de juros,
- e considerar a diversificação internacional não apenas pelo “medo do dólar subir”, mas como estratégia estrutural de proteção de patrimônio.
7. Conclusão: um real forte apoiado em juros altos e apetite por risco
A queda do dólar e a valorização do real em 2026 resultam de uma combinação de fatores:
- Apetite global por risco, com bolsa aquecida;
- Perspectiva de cortes de juros pelo Fed, favorecendo ativos emergentes;
- Carry trade extremamente atrativo com Selic em patamar elevado;
- Histórico recente de commodities resilientes, em especial o minério de ferro.
Enquanto esse quadro se mantiver, o real tende a seguir em posição de destaque entre as moedas emergentes. No entanto, trata-se de um cenário sensível a mudanças no ciclo de juros globais e nos preços de commodities, o que exige monitoramento constante por parte de empresas e investidores.

Rafael Monteiro é jornalista especializado em negócios e inovação, com 15+ anos de experiência em cobertura econômica, empreendedorismo e mercado corporativo. Atuou em redações de portais e revistas de finanças, assessorias de imprensa e projetos de conteúdo para empresas de médio e grande porte, acompanhando de perto temas como gestão, marketing, finanças, tecnologia aplicada aos negócios e ambiente regulatório.









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