Gás de cozinha importado: Paridade de importação salta 60% e aumenta pressão sobre a Petrobras

O cenário para o mercado de combustíveis no Brasil sofreu uma reviravolta significativa com o aumento expressivo nos custos de importação. O gás de cozinha importado ficou 60% mais caro em um curto espaço de tempo, refletindo diretamente as tensões geopolíticas no Oriente Médio. De acordo com dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP), a paridade de importação para o Gás Liquefeito de Petróleo (GLP) disparou após o início da guerra no Irã, criando um cenário de forte pressão sobre a Petrobras para que a estatal ajuste seus preços de venda nas refinarias.

Atualmente, o Brasil depende de compras externas para suprir 20% da demanda nacional do produto, sendo a Petrobras a principal importadora. Diante desse desequilíbrio entre o preço praticado internamente e as cotações internacionais, o governo federal analisa uma proposta para a criação de um subsídio. O objetivo da medida é permitir que a estatal realize os ajustes necessários em seus preços de venda sem que o impacto seja integralmente repassado ao bolso do consumidor final.

Gás de cozinha importado e os impactos da guerra no Irã

A escalada nos preços internacionais do gás de cozinha importado é uma consequência direta do conflito bélico no Irã. Os números fornecidos pela ANP detalham a rapidez dessa alta: na terceira semana de fevereiro, a paridade de importação pelo Porto de Santos (SP) era de R$ 32,21 por botijão. Na semana passada, esse valor saltou para R$ 51,40, representando o acréscimo de 60%.

Em outros pontos estratégicos de entrada do produto, como o Porto de Suape (PE), a variação seguiu tendência semelhante, subindo de R$ 31,56 para R$ 50,67 por unidade de 13 quilos. Essa disparidade indica que os importadores brasileiros estão pagando um valor substancialmente maior pelo produto do que o desembolsado na semana imediatamente anterior ao início das hostilidades no Irã.

Apesar dessa explosão no custo externo, o preço médio praticado por refinarias e importadores dentro do território brasileiro permaneceu em R$ 35,46 por botijão, demonstrando uma estabilidade que contrasta com o mercado global. A Petrobras, especificamente, não altera o preço base do GLP em suas refinarias desde julho de 2024.

Estratégias da Petrobras e leilões de GLP

Para lidar com a alta do gás de cozinha importado, a Petrobras tem adotado estratégias paliativas. A estatal vem repassando apenas parcialmente a elevação das cotações internacionais por meio de leilões. Recentemente, a empresa anunciou ao mercado a realização de leilões com um ágio mínimo de aproximadamente 30% sobre o preço cobrado habitualmente.

Nesses certames, a Petrobras disponibiliza cerca de 70 mil toneladas de GLP, volume que corresponde a 12% do consumo mensal de todo o Brasil. Esse ágio é aplicado exclusivamente sobre a parcela importada do combustível, tentando equilibrar as contas da companhia sem desestruturar completamente o mercado interno. No entanto, a defasagem em relação aos preços internacionais continua elevada, o que motiva as discussões governamentais sobre o novo subsídio.

Reajuste no Nordeste e a refinaria de Mataripe

Enquanto os preços nacionais permanecem estáveis para a maioria, a região Nordeste já começa a sentir os reflexos da valorização do gás de cozinha importado. A Acelen, empresa que administra a Refinaria de Mataripe (BA) — a maior unidade de refino privada do país —, anunciou um reajuste de 16% no preço do GLP para seus clientes.

Este aumento representa um acréscimo de R$ 7 por botijão para as distribuidoras da região. Segundo dados da ANP, a refinaria da Acelen detém 4,3% de participação no mercado brasileiro de gás de cozinha, enquanto a Petrobras mantém o domínio sobre 90% do setor. Desde outubro de 2025, o preço médio ao consumidor final no Brasil tem oscilado na casa dos R$ 110, mas a movimentação da refinaria baiana indica o fim dessa estabilidade regional.

O papel da Liquigás e o discurso de Lula

O tema do preço do combustível tem sido central na gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O mandatário tem feito críticas constantes às margens de lucro das empresas privadas que adquirem o produto das refinarias da Petrobras para revenda. Em seus discursos, Lula questiona também a venda da Liquigás, distribuidora que possui 13% do mercado nacional e que anteriormente pertencia à estatal. Para o governo atual, a Liquigás era uma ferramenta estratégica para o controle direto dos preços do combustível às famílias brasileiras.

O Futuro do Gás de Cozinha Importado no Brasil

A evolução do preço do gás de cozinha importado dependerá fundamentalmente da duração do conflito no Irã e da velocidade com que o governo federal implementará o subsídio proposto. A medida é vista como o “gatilho” necessário para que a Petrobras possa alinhar seus preços internacionais sem gerar uma crise inflacionária imediata para as famílias que dependem do botijão de 13kg.

Até o momento, a ANP monitora os estoques e a paridade, enquanto o mercado aguarda os próximos passos do Ministério da Fazenda e da diretoria da estatal. Se o subsídio não for concretizado, a pressão financeira sobre a Petrobras pode tornar a manutenção dos preços atuais insustentável a médio prazo, dado que a empresa absorve sozinha grande parte do prejuízo com a importação mais cara.