O período da Quaresma, tradicionalmente marcado por 40 dias de preparação para a Páscoa na tradição católica, traz consigo transformações profundas na rotina de milhões de fiéis. Entre os pilares desse tempo de reflexão e penitência, as alterações nos hábitos alimentares ganham destaque, especialmente a abstenção de carne vermelha e a prática de jejuns.
No entanto, o que é um exercício espiritual pode se tornar um desafio para o organismo. Segundo o Dr. Jaifábio Lima, médico cardiologista, a relação entre Quaresma e saúde exige atenção redobrada, principalmente para quem convive com condições crônicas como diabetes e hipertensão, ou faz uso de medicações contínuas.
A prática religiosa, embora benéfica para a renovação da fé, pode desencadear alterações sistêmicas se não for bem planejada. O alerta do especialista foca na necessidade de equilíbrio para que a penitência não resulte em prejuízos físicos, garantindo que o recolhimento espiritual ocorra em harmonia com o bem-estar do corpo.
Quaresma e saúde: Os cuidados necessários para o jejum seguro
Para muitos fiéis, o jejum é uma forma de fortalecer a disciplina espiritual. Contudo, o Dr. Jaifábio Lima enfatiza que a condição de saúde individual deve ser o primeiro critério antes de iniciar qualquer restrição severa. “O jejum tem uma simbologia religiosa e espiritual, mas a pessoa deve se atentar à condição de saúde, como diabetes, gravidez, alterações alimentares e metabólicas”, explica o cardiologista. O objetivo é evitar gatilhos que possam comprometer o funcionamento do organismo.
Pacientes com histórico de problemas cardiovasculares ou disfunções na tireoide estão entre os grupos que necessitam de um planejamento rigoroso. Sem o devido acompanhamento, a ausência de refeições completas ou a adoção do jejum intermitente pode desestabilizar tratamentos em curso. A recomendação médica é clara: a execução da prática religiosa deve ser precedida por uma análise técnica para que não haja riscos à vida do fiel.
Quem está dispensado das restrições segundo a Igreja
É fundamental destacar que a própria Igreja Católica, por meio do Código de Direito Canônico, estabelece critérios de dispensa para preservar a vida. Estão isentos do jejum e da abstinência de carne:
- Pessoas doentes ou com fragilidade física e mental;
- Gestantes e lactantes;
- Idosos e crianças (abaixo de 14 anos e adultos acima de 59 anos);
- Trabalhadores que exercem atividades braçais pesadas.
Mesmo para aqueles que não se enquadram nessas categorias, mas possuem limitações como pressão alta ou baixa, o Dr. Jaifábio reforça a importância da comunicação com o profissional de saúde. O planejamento permite ajustar horários de medicação e equilibrar a dieta sem anular o sentido da prática religiosa.
A substituição da carne vermelha e o aporte proteico
Durante a Quaresma, a carne vermelha é frequentemente retirada do cardápio brasileiro. De acordo com o cardiologista, essa mudança não é prejudicial por si só, desde que o aporte proteico seja compensado de forma inteligente. A carne vermelha é uma fonte significativa de proteína, e sua ausência súbita precisa ser suprida por outros alimentos para garantir o funcionamento metabólico, especialmente em indivíduos que já possuem alguma deficiência nutricional.
Como alternativas viáveis, o Dr. Jaifábio Lima sugere a inclusão de:
- Ovos e queijos;
- Pescados (peixes de diversas variedades);
- Produtos à base de soja;
- Leguminosas e outros vegetais ricos em nutrientes.
Essa diversificação não apenas mantém os níveis de proteína estáveis, como também enriquece o paladar com novas fontes de energia que podem ser mantidas mesmo após o período pascal.
O perigo oculto do excesso de sal em pratos típicos
Um dos maiores desafios para a combinação Quaresma e saúde é o consumo de pratos tradicionais que podem esconder altas doses de sódio. Peixes como o bacalhau e diversos frutos do mar, como o camarão, são muito comuns nesta época, mas frequentemente contêm grandes quantidades de sal para conservação ou tempero.
Para os hipertensos, esse excesso é um “vilão” perigoso. “O consumo de muito sal aumenta a pressão arterial. Isso descontrola a pressão em quem já tem hipertensão tratada ou controlada”, alerta o médico. Além da pressão arterial, o especialista aponta que o aumento de carboidratos e gorduras presentes em certas preparações típicas pode elevar os níveis de colesterol e triglicerídeos. A moderação e o preparo adequado desses alimentos (como a dessalga correta do peixe) são passos essenciais para evitar crises hipertensivas.
Hábitos saudáveis que podem ser levados para a vida toda
Apesar dos alertas, o Dr. Jaifábio Lima vê na Quaresma uma oportunidade para a adoção de costumes benéficos. A redução no consumo de gorduras saturadas e a variação das fontes de proteína são práticas que, se incorporadas definitivamente, trazem longevidade. “A experiência espiritual e religiosa sempre será positiva enquanto existir a prudência”, afirma.
O enriquecimento do cardápio com vegetais e a escolha por proteínas mais magras geram um impacto positivo direto no sistema cardiovascular. Ao final do período, o coração e a pressão arterial agradecem as escolhas conscientes feitas pelo fiel.
FAQ: Dúvidas frequentes sobre Quaresma e saúde
O que exatamente pode impactar a saúde durante a Quaresma? A saúde pode ser impactada pelas mudanças bruscas na alimentação, como o jejum prolongado e a substituição da carne vermelha por alimentos com alto teor de sódio ou gordura, o que pode desequilibrar doenças crônicas.
Quem deve ter cuidado redobrado com o jejum religioso? Pessoas com diabetes, hipertensão, alterações na tireoide, gestantes e aqueles que fazem uso de medicação controlada devem planejar o jejum com orientação médica.
Quais alimentos podem substituir a carne vermelha com segurança? Segundo o Dr. Jaifábio Lima, as proteínas podem ser repostas através do consumo de ovos, queijos, produtos de soja e pescados.
Por que o consumo de bacalhau e camarão exige atenção? Esses alimentos costumam ter uma dose elevada de sal. O excesso de sódio pode aumentar a pressão arterial e descontrolar a hipertensão, além de contribuir para o aumento do colesterol.
O que diz o Código de Direito Canônico sobre o jejum para doentes? O Código dispensa oficialmente do jejum e da abstinência as pessoas doentes, idosos acima de 59 anos, crianças abaixo de 14 anos, gestantes e trabalhadores de atividades pesadas.
Qual a principal recomendação para quem toma remédios controlados? A orientação principal é deixar o médico ciente da intenção de fazer o jejum, para que ele possa planejar a administração da medicação e os hábitos alimentares sem prejuízos à saúde.









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